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O Elefante

O Elefante

Uma rosa na Fontana di Trevi

O Elefante, 19.09.21

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Já não escrevo aqui há muito tempo. Não o faço porque me tenha esquecido de ti mas porque me tenho focado em seguir em frente. Estou num sitio muito melhor do que estava há uns meses quando comecei isto, estou a fazer coisas novas e a descobrir-me todos os dias. Penso em ti sempre que faço algo novo ou algo que nunca faria antes e imagino sempre a tua reação "cabrão, foi preciso eu já não estar cá para tu fazeres isso!". Sim, foi. Foi preciso perder-te dessa forma tão cruel e dura para eu colocar a minha vida em perspetiva, perceber quem era e o que queria. E por isso estou em dívida para contigo para sempre, porque mesmo não estando foste o motor desta mudança. Passei uns dias em Roma com amigos, uma cidade que tu já tinhas visitado há uns anos. E no último dia em Roma lembrei-me que tinha um áudio teu, que me enviaste por Whatsapp, a cantar o "sole mio" no banho. Afastei-me do grupo, meti os fones nos ouvidos e carreguei play. Eram 3 da manhã, Roma estava deserta, ninguém no passeio, nenhuma vespa na estrada, só eu e a noite. E aquele "sole mio" veio do além, como se tivesses ali, como se fosse uma metáfora de tudo o que se iluminou deste que te foste. E bateu uma saudade tão grande tua, uma saudade envolvida no conforto de estar a ouvir a tua voz provavelmente no local mais indicado. Como se estivéssemos a viajar os dois e começado a cantar, como tantas vezes fazíamos, no meio da rua. Os meus amigos ainda queriam ver a Fontana di Trevi de noite que, para quem não conhece, é um dos monumentos mais icónicos de Roma mas que durante o dia está completamente à pinha. No meio do caminho, olho para o passeio e estava, intacta sobre as pedras do caminho, uma rosa branca igual à que deixei na tua campa naquele dia. E como tudo o que te rodeia está sempre recheado destas coincidências cósmicas aceitei só, peguei na rosa e segui caminho. Chegámos à fonte, cada um dos meus amigos meteu-se num canto da fonte a pensar na vida e eu afastei-me um pouco do grupo. Voltei a colocar os fones nos ouvidos e a ouvir o teu "sole mio" na serenata mais portuguesa à fonte mais italiana. Ouvi todo aquele minuto de áudio com lágrimas nos olhos e no fim coloquei a rosa sobre o muro da fonte, como se aquele, a partir de agora, fosse também um monumento a ti. Deixei-me ficar sentado nos degraus de frente para a fonte calado. De repente reparo que o meu grupo já não está sozinho, uma senhora com trintas e poucos anos juntou-se a ver a fonte também. Só se ouvia a água naquela noite, ninguém falava e ninguém meteu conversa. A senhora deteve-se vários minutos junto a nós e depois olhou a rosa, olhou à volta, aproximou-se, pegou nela e foi. Seguiu de rosa na mão pelas ruas de Roma. Iria ela leva-la a alguém? Iria ouvir um áudio e deixa-la em frente a um monte de pedras? Isto fez-me questionar o percurso da rosa naquela noite. Quantas almas desoladas terá consolado? Quantos quilómetros fez? Quem é que a deixou no passeio? Terá encontrado um jarro onde descansar em paz no final da noite? E nós? Quantas almas desoladas consolamos? Quantos quilómetros fazemos? Quem é que nos deixou no passeio? Encontraremos um jarro onde descansar em paz no final da noite?

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Estilhaços

O Elefante, 11.06.21

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Vemos cada vez mais saudosistas da família tradicional e cada vez mais apologistas de que as novas gerações "já não têm valores". Mas quais são os valores que as novas gerações abandonaram? O machismo? A homofobia? A humanidade viveu séculos de opressão e atirou indivíduos cheios de sonhos para a sarjeta do sigilo, da vergonha e do armário. Atirou mulheres para a cozinha, para as limpezas e fábricas, sem nunca lhes perguntar o que queriam ou quem eram. Atirou jovens para a depressão e suicídio com medo de não serem aceites pelos que mais amavam. Vivemos décadas onde pais tinham vergonha de filhas trabalhadoras, nojo de filhos homossexuais e repúdio por tudo o que fosse diferente. Então o que vale, verdadeiramente, a pena salvaguardar aqui? As pessoas e a sua liberdade em serem quem bem quiserem. Que se estilhace a família tradicional! Que se destrua tudo o que ela implica! Que se escavaquem os valores! Que não se compactue mais com isto! Acabou, puff! Finito! Foi longa a noite, mas já amanheceu...

O Elefante 

Redescobrir o mundo

O Elefante, 05.06.21

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Pareço um puto outra vez. Nos últimos meses tenho redescoberto o amor que tenho pelos meus amigos, pela minha família e pelas coisas que gosto. Agora perco mais tempo com todos eles. Os cafés, os copos, os passeios e as conversas tornaram-se ainda mais frequentes. Estou a redescobrir o porquê de gostar de todos eles. Muitas vezes são encontros a dois, eu e eles. A conversa é diferente, mais intimista, mais honesta e sem grande censura. Têm sido conversas longas e sobre tudo. Sobre as nossas expectativas de vida, sobre o amor, sobre o trabalho, sobre os nossos gostos... E tem sabido bem esta partilha. Agora amo-os de forma mais consciente. E, sei lá, pareço um puto a descobrir a cidade, a voltar a andar de bicicleta, a ir aos miradouros, a passear pelas ruas e vielas. E passeio faminto de mundo porque agora sei que tudo é efémero e que tenho que aproveitar. E tenho me redescoberto, tenho sido honesto sobre quem sou e já comecei a contá-lo às pessoas. E acho que no geral, esta fase tem sido boa neste sentido, voltei a ganhar fome de mundo, vontade de correr e prazer nas pequenas coisas. Devo-te isso a ti. Partiste mas a tua derradeira e mais importante mensagem foi esta, tenho mudado tanto na minha vida pela tua ausência que sinto até alguma culpa por não estares a viver comigo esta mudança. E amo-te. Agora sei que te amo rapaz. E se dantes não éramos nada pirosos na nossa amizade, agora dir-to-ia olhos nos olhos. Disse-o às vezes e digo-to agora. E tento honrar-te desta forma: tentando seguir em frente...

O Elefante

Duas flores, um banco e uns carrinhos.

O Elefante, 25.05.21

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Fui falar contigo pela primeira vez desde que te foste. Sempre tive a filosofia de que não faz muito sentido ir a cemitérios, porque sempre achei que os nossos familiares ou amigos que já partiram estariam em qualquer lugar do mundo excepto ali. Eu se estivesse morto não ficaria ali à espera que me fossem ver, ia à minha vidinha mas olha caguei nesta minha regra e fui. Hora de almoço, o cemitério estava completamente vazio e à entrada estava uma senhora a vender flores, jogo a mão ao bolso para ver se tinha algumas moedas, "3 euros, já me safei" e comprei duas flores brancas. Refiz o caminho que percorri no funeral, era a única forma que tinha de chegar ao sítio certo sem me perder. Cheguei. A tua campa ainda nem estava arranjada. Olho à volta e o sítio está vazio, estou sozinho. A alguns metros da campa estava um banco. Nunca tinha visto um banco num cemitério mas achei aquilo um golpe de destino tão grande, parecia mesmo aquele amigo que arruma a casa antes de receber visitas. Fui buscá-lo e sentei-me de frente para ti. E fiquei ali um bocado a olhar, calado, com duas flores brancas na mão. Primeiro disse uma palavra, depois outra e as que se seguiram já eram fluídas e sem pensar. Falei. Disse o que tinha a dizer, em voz alta como os malucos, e até contei piadas para aliviar a solenidade do momento. Mas tenho-te que dizer que não obtive grandes respostas, imaginei-as, isso chegou-me. No final pensei em como todas as vezes que estávamos juntos ouvíamos música e nem hesitei. Peguei no telemóvel, Spotify, Hands on approach, e meti a música baixinho. Foi nessa altura que vi o céu, azul, sem nuvens e eu ali, sozinho (ou não), de telemóvel na mão a tocar a nossa música preferida. Deixei a música acabar, não chorei e quando senti que te tinha dito tudo, levantei-me, arrumei o banco e fui. Nisto lembrei-me das histórias que a minha avó contava sobre o pai dela, a pessoa que me deu o apelido, e naquele momento achei que fazia sentido ir descobrir onde ele estava. Fui ao talhão da liga dos combatentes à procura mas sem sucesso. Já tinha decidido regressar a casa quando olhei para baixo e vi uns brinquedos. Era a campa de uma criança,branca, rasa e pequenina. Tinha um pequeno raminho de flores em cima, nem me recordo bem do ramo porque aquilo que me chamou mais à atenção foram mesmo os brinquedos. Ali, pousados sobre a campa estavam carrinhos de brincar, muitos, alguns já gastos pelo sol e outros novos. Pousados sem ninguém brincar com eles. E naquele momento pensei na dor daquela família que decide pousar brinquedos sobre uma campa, que gesto de amor e de dor tão avassaladores. E ver aquela campa pequenina com os brinquedos em cima foi ver ali a condição humana toda, ver tudo o que passei nos últimos meses: a injustiça da morte, a injustiça da vida, a dor, a perda, as coisas que fazemos quando perdemos os que amamos, estava tudo ali, naquele metro de dor. E chorei. Chorei porque isto é tudo tão estúpido, o tu já não estares cá é tão estúpido, um miúdo que brincava com carrinhos não estar cá é tão cruel que não me restou mais nada se não chorar. Chorar a campa de um desconhecido, um miúdo que nunca vi, porque me identifiquei com a dor daqueles pais que não conheço. 

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Uma falha na Matrix

O Elefante, 18.05.21

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Hoje voltei a ter saudades dele, escrevi-lhe uma mensagem no bloco de notas do telemóvel e  vi fotos nossas. Fiquei num caco. A natureza humana é extremamente curiosa porque parece que os problemas nunca ficam exatamente resolvidos, ficam só numa garrafa dentro de nós e quando a abrimos, ou ela se abre sozinha, sai tudo e volta tudo ao mesmo. Temos mesmo que fazer alguma coisa para remover ou aliviar a garrafa. Este momento horrível não pode demorar muito porque já tinha um café combinado e os olhos de choro não foram nada que não se disfarçasse com uns óculos de sol. Fui, fiquei fixe e aproveitei o café e a conversa. Entretanto quando regressava a casa, sempre de fones, porque não consigo andar na rua sem música, o spotify começou a encravar. Raramente me acontece, o telemóvel é novo e ainda tinha muitos dados móveis. Encravava, não mexia, tentava fechar a aplicação, tentava parar a música e nada. Nisto a música pára por completo e o telemóvel não mexe. Zero. Do nada começou a tocar uma música, uma música que eu nem conhecia. A letra parecia uma mensagem pelo que tinha passado no quarto umas horas antes. Fiquei parado no meio da rua a ouvir e foi o abraço que precisava. Ou então um delírio! Mas sem dúvida alguma, uma falha na matrix. E tu rapaz, estás cá ou estás fora? Estou mesmo a ficar maluco...

O Elefante

Ps: Deixo-vos a música para ouvirem. 

 

Perfeitos Desconhecidos

O Elefante, 16.05.21

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Há uns dias fui ao Teatro com amigos e a peça que nos calhou na rifa foi "Perfeitos Desconhecidos" no teatro Maria Marta em Lisboa. Nenhum de nós sabia do que tratava a peça senão que era uma comédia. O plot da peça é muito simples: um jantar de amigos, decidem colocar os telemóveis em cima da mesa sem qualquer pudor e ler as mensagens que lhes cheguem em voz alta. No desenrolar da peça, o espectador assiste às revelações, aos segredos e às reações dos amigos. A peça deixou-me a pensar porque também eu tenho segredos, alguns maiores que outros, aliás, um certamente mais importante que os outros... E, no entanto, ali estava eu, sentado ao lado dos meus amigos, que também eles devem ter as suas coisas, enquanto pensava no que lhes escondo. Seria eu capaz de colocar o meu telemóvel na mesa? Deixar que lessem e vissem o que recebo? Provavemente não. A pergunta que se impõe é: estou a tentar salvaguardar-me a mim ou a eles? Porque se estiver a tentar salvaguardá-los então sou um estúpido e devia era cagar nisso e seguir a minha vida. Agora, se estiver a salvaguardar-me a mim, há uma segunda pergunta a fazer. Estou a salvaguardar-me do quê? Das críticas deles? Do facto deles poderem só afastar-se? Da amizade mudar? Valerá a pena afectar a minha vida por pessoas que, se soubessem quem eu sou podiam cagar em mim? Imaginem que eu esperava  anos para ganhar coragem e no final desse tempo lhes dizia, iria arrepender-me de ter esperado  quer pelos que reagissem bem e não mudassem nada na amizade, quer pelos que reagissem mal e se afastassem. Não vale a pena. O telemóvel tem que estar à vista. Um amigo meu no final da peça questionou "Como é que um grupo de amigos poderia ter tantos segredos e, ainda por cima, segredos destes?", no entanto, ali estava eu a um metro dele, um perfeito desconhecido. Recomendo que vão ao Maria Marta e que levem o vosso companheiro/a ou os vossos amigos e no regreso sei, que à vossa maneira, terão percebido que sempre foram "perfeitos desconhecidos".

O Elefante

A Graça da Graça

O Elefante, 10.05.21

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Decidi abdicar da minha hora de almoço para dar uma volta. Os meus colegas de casa até estranharam a investida e tentaram perceber se eu estava maluco. E estou, ou melhor, de louco todos temos pouco, não é o que o ditado diz? Vesti-me, fones nos ouvidos e desci as escadas. Sabem aquele jogo do "vou escolher sempre a rua que nunca fui"? Foi mais ou menos isso que decidi fazer. Problema? A chuva! 5 minutos antes estava um dia razoável e do nada cai uma tromba de água tal que tive de me abrigar debaixo de uma varanda. Outros 5 minutos depois já estava grande sol de primavera e um céu azul que faria qualquer um a quem contasse a molha que apanhei achar que estava louco. E nisto, rua após rua, uma passadeira ali, umas obras noutro sítio e umas escadas infinitas depois, fui dar ao miradouro da Graça. E estava quase deserto! Até fazia impressão ver um largo tão grande vazio, uma esplanada vazia e os bancos vazios. Para além de mim, só lá estava um casalinho a quem nem dei muita atenção. Milagre dos milagres, havia um banco onde o sol batia e já estava seco, sentei-me. E fiquei ali um bocado a ver o castelo, o largo, a ponte e Lisboa. Há qualquer coisa de assutador nesta resiliência citadina aos problemas de quem lá vive. Lisboa não chora a tristeza dos seus habitantes, não ri, não dança, não aplaude, existe. Tiveste um dia mau? Tiveste um dia bom? Todos os que chegassem aquele largo nesta tarde iriam vê-lo deserto com aquele banco convidativo onde me decidi sentar. O mesmo para todos, sem favores, sem abraços, sem palavras amigas. Cruel? Eu sentei-me naquele banco e vi a ponte ao fundo cheia de sol, os jardins onde passeio, a almirante que tantas vezes desço, vi ali os locais que mais gosto e me fazem sentir bem. Era isso que precisava, foi isso que vi. Outro veria outra coisa qualquer, o que ele precisasse. E lisboa é isto, um menu, um quadro que nós apreciamos com os óculos da nossa vida e aos olhos do que sentimos. E é isto que tem graça.

O Elefante.

Campo Grande

O Elefante, 09.05.21

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Hoje foi um dia de merda. Não sei porquê, mas hoje bateu-me tudo de uma vez. Hoje falei dele outra vez e é sempre bom quando falam dele, não gosto de ser eu sempre a trazer o assunto. Falámos ainda um bom bocado, houve histórias, houve risos, houve aqueles momentos de silêncio em que ficamos só a pensar nas saudades que temos tuas, houve de tudo um pouco mas não houve lágrimas. Falámos de futuro, do que vai ser feito de nós quando acabarmos os cursos, em que vamos trabalhar, como queremos viver, o quão dispostos estamos a abdicar do nosso tempo para uma empresa. Falámos de amor, do que é ter uma relação, do que é amar e gostar de alguém, dos sacrifícios, do saber amar de forma saudável e do deixar ir mesmo quando se ama. E no meio disto tudo andámos bastante ainda que parando às vezes num banco ou num miradouro. A conversa foi boa, a companhia foi ótima, o tempo estava excelente. Mas quando era para vir para casa, peguei na bicicleta e não me apetecia ir para casa, não me apetecia ir já, queria ficar na rua mais um bocado. E não fui. Contornei uma árvore, fiz o sentido oposto e deixei-me ir. De fones nos ouvidos e orelhas ao vento, acabei no Campo Grande. E senti-te ali, não sei explicar, um toque no peito bué forte. Não sei se foi a música, não sei se foi a bicicleta, mas senti-te ali. Olhei para trás e vi a ciclovia até Entrecampos deserta, virei a bicicleta, apoiei o pé no chão para ganhar coragem e fui. Fui rápido, a música alta, os carros ao lado, ninguém corria e já era noite, e senti o vento, senti a bicicleta a fugir, senti a ciclovia deserta, senti a noite ali e senti-te a ti. E houve ali um momento em que fechei só os olhos porque estavas ali, e soube-me bem, deixei-me ir sem medo, e o vento sabia bem, a bicicleta sabia bem e Lisboa estava ali. Pensei em tudo o que tu nunca me tinhas contado, em tudo o que eu nunca te tinha contado e em tudo o que passámos e deixei-me ir. De regresso a casa, deixei a bicicleta e fui a pé. E não sei se foi por tudo o que aconteceu ou pelo que tinha acabado de pensar mas pensei no que nunca tive coragem de contar. E contei-o na minha cabeça, disse só, e imaginei as pessoas que amo a ouvir, tal como tu deves ter feito muitas vezes, e quando dei por mim estava só a chorar. Porque o disse, e Lisboa estava a ouvir, e a música estava a dar e já não havia segredos.

O Elefante

Elefante Colombo

O Elefante, 06.05.21

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Armei-me em Cristóvão e fui ao Colombo buscar tecidos porque andava a precisar de roupa. E deixem-me que vos diga que ir ao Colombo é uma seca! Como já há muito tempo que não ia a um shopping, já me tinha esquecido da seca que é escolher roupa e agora com o covid ganhou uma dimensão ainda mais sádica. Tuga que é tuga tem vergonha de comprar roupa nos chineses mas depois faz filas de meia hora para comprar na primark, é tudo uma questão de rebranding. Mas aquilo é o paraíso das ninharias e das t-shirts a 2 euros, para não falar daquelas t-shirts a apelar à consciência ambiental e humanitária que são feitas com trabalho quase escravo em países de terceiro mundo. Mas quem é que resiste a roupa tão barata? Eu não consigo... E a minha carteira também não! Depois da primark, que foi para assegurar o meu stock básico de roupa,repor meias e substituir boxers velhos, ainda dei uma volta por outras lojas. E este ano vivem-se tempos muito fáceis para os adoradores de palmeiras, roupa geek e padrões esquisitos. A ida à secção dos gajos numa loja de roupa já é o que é, as mulheres ficam com a entrada, a frente de loja e as prateleiras quase todas mas nós, para comprarmos umas calças, quase que temos que ir à cave, subir o evareste ou esmiuçar aquelas duas estantes ao lado das caixas. E quando cheguei ao destino vi um cenário comum em todas as lojas: palmeiras a dar com um pau, t-shirts geeks com super-heróis e aqueles padrões marítimos. Eu só queria um tshirt engraçada com uma piada, um meme ou um desenho mais caricato. Resultado: tive de procurar mais, andar em mais lojas e perdi 5 horas nisto. 5 horas num shopping é bué, é quase um dia de trabalho. Aquelas filas todas e aquela espera toda só me fizeram pensar o quão mais fácil o mundo seria se não houvesse roupa, tudo ao léu. Será que a malta também faria fila para comprar folhas de figueira para tapar a genitália? 

O Elefante

Douchebag

O Elefante, 04.05.21

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É Horrível. Acordar a meio da noite com vontade de ir à casa de banho é horrível. Uma pessoa ainda tenta dar luta, fecha os olhos, vira a almofada e tenta regressar ao sonho. Mas às vezes é difícil, há vezes assim, aquelas em que percebemos que se não formos mijamos mesmo a cama toda. Eu não sei quanto a vocês mas se há medo que mantenho desde que sou puto é das cortinas do duche. Isso mesmo, das cortinas do duche. E nem é aquele horror estético do "ai que cena velha que não se usa, tenho horror a isso" é mesmo aquele horror policial do "foda-se está ali um gajo escondido e vai me dar uma facada enquanto estou a mijar". Irracional. O ritual é sempre o mesmo, acendo a luz, vou em bicos de pés e afasto a cortina de repente como se todo aquele gesto grotesco gritasse "apanhei-te cabrão". Nunca apanhei ninguém, ainda bem. Hoje, como podem calcular pelas horas a que estou a escrever isto, a tradição voltou-se a cumprir mas só agora pensei no que nunca tinha pensado: "e se um dia está mesmo lá alguém, o que é que faço?!". Pior que ser assaltado com uma arma branca é ser assaltado com uma branca e ficar sem reação. A minha primeira ideia foi "piaçaba na testa do indivíduo", erro, pouco eficaz. Segunda ideia: fugir, erro outra vez, nunca fui atleta. Terceira ideia: "take one for the team", gritar e chamar pelos meus colegas de casa, herói, acabo esfaqueado mas salvo os meus colegas. Terei que começar a ir mijar de noite com gás pimenta? É que uma pessoa nem tem vontade de ser herói quando está ali a tentar ser rápido e discreto para voltar rápido para a cama para continuar o sonho alucinado que estava a ter. Vá lá, deixem-me mijar em paz. 

O Elefante