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O Elefante

O Elefante

A Graça da Graça

O Elefante, 10.05.21

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Decidi abdicar da minha hora de almoço para dar uma volta. Os meus colegas de casa até estranharam a investida e tentaram perceber se eu estava maluco. E estou, ou melhor, de louco todos temos pouco, não é o que o ditado diz? Vesti-me, fones nos ouvidos e desci as escadas. Sabem aquele jogo do "vou escolher sempre a rua que nunca fui"? Foi mais ou menos isso que decidi fazer. Problema? A chuva! 5 minutos antes estava um dia razoável e do nada cai uma tromba de água tal que tive de me abrigar debaixo de uma varanda. Outros 5 minutos depois já estava grande sol de primavera e um céu azul que faria qualquer um a quem contasse a molha que apanhei achar que estava louco. E nisto, rua após rua, uma passadeira ali, umas obras noutro sítio e umas escadas infinitas depois, fui dar ao miradouro da Graça. E estava quase deserto! Até fazia impressão ver um largo tão grande vazio, uma esplanada vazia e os bancos vazios. Para além de mim, só lá estava um casalinho a quem nem dei muita atenção. Milagre dos milagres, havia um banco onde o sol batia e já estava seco, sentei-me. E fiquei ali um bocado a ver o castelo, o largo, a ponte e Lisboa. Há qualquer coisa de assutador nesta resiliência citadina aos problemas de quem lá vive. Lisboa não chora a tristeza dos seus habitantes, não ri, não dança, não aplaude, existe. Tiveste um dia mau? Tiveste um dia bom? Todos os que chegassem aquele largo nesta tarde iriam vê-lo deserto com aquele banco convidativo onde me decidi sentar. O mesmo para todos, sem favores, sem abraços, sem palavras amigas. Cruel? Eu sentei-me naquele banco e vi a ponte ao fundo cheia de sol, os jardins onde passeio, a almirante que tantas vezes desço, vi ali os locais que mais gosto e me fazem sentir bem. Era isso que precisava, foi isso que vi. Outro veria outra coisa qualquer, o que ele precisasse. E lisboa é isto, um menu, um quadro que nós apreciamos com os óculos da nossa vida e aos olhos do que sentimos. E é isto que tem graça.

O Elefante.

Campo Grande

O Elefante, 09.05.21

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Hoje foi um dia de merda. Não sei porquê, mas hoje bateu-me tudo de uma vez. Hoje falei dele outra vez e é sempre bom quando falam dele, não gosto de ser eu sempre a trazer o assunto. Falámos ainda um bom bocado, houve histórias, houve risos, houve aqueles momentos de silêncio em que ficamos só a pensar nas saudades que temos tuas, houve de tudo um pouco mas não houve lágrimas. Falámos de futuro, do que vai ser feito de nós quando acabarmos os cursos, em que vamos trabalhar, como queremos viver, o quão dispostos estamos a abdicar do nosso tempo para uma empresa. Falámos de amor, do que é ter uma relação, do que é amar e gostar de alguém, dos sacrifícios, do saber amar de forma saudável e do deixar ir mesmo quando se ama. E no meio disto tudo andámos bastante ainda que parando às vezes num banco ou num miradouro. A conversa foi boa, a companhia foi ótima, o tempo estava excelente. Mas quando era para vir para casa, peguei na bicicleta e não me apetecia ir para casa, não me apetecia ir já, queria ficar na rua mais um bocado. E não fui. Contornei uma árvore, fiz o sentido oposto e deixei-me ir. De fones nos ouvidos e orelhas ao vento, acabei no Campo Grande. E senti-te ali, não sei explicar, um toque no peito bué forte. Não sei se foi a música, não sei se foi a bicicleta, mas senti-te ali. Olhei para trás e vi a ciclovia até Entrecampos deserta, virei a bicicleta, apoiei o pé no chão para ganhar coragem e fui. Fui rápido, a música alta, os carros ao lado, ninguém corria e já era noite, e senti o vento, senti a bicicleta a fugir, senti a ciclovia deserta, senti a noite ali e senti-te a ti. E houve ali um momento em que fechei só os olhos porque estavas ali, e soube-me bem, deixei-me ir sem medo, e o vento sabia bem, a bicicleta sabia bem e Lisboa estava ali. Pensei em tudo o que tu nunca me tinhas contado, em tudo o que eu nunca te tinha contado e em tudo o que passámos e deixei-me ir. De regresso a casa, deixei a bicicleta e fui a pé. E não sei se foi por tudo o que aconteceu ou pelo que tinha acabado de pensar mas pensei no que nunca tive coragem de contar. E contei-o na minha cabeça, disse só, e imaginei as pessoas que amo a ouvir, tal como tu deves ter feito muitas vezes, e quando dei por mim estava só a chorar. Porque o disse, e Lisboa estava a ouvir, e a música estava a dar e já não havia segredos.

O Elefante

Elefante Colombo

O Elefante, 06.05.21

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Armei-me em Cristóvão e fui ao Colombo buscar tecidos porque andava a precisar de roupa. E deixem-me que vos diga que ir ao Colombo é uma seca! Como já há muito tempo que não ia a um shopping, já me tinha esquecido da seca que é escolher roupa e agora com o covid ganhou uma dimensão ainda mais sádica. Tuga que é tuga tem vergonha de comprar roupa nos chineses mas depois faz filas de meia hora para comprar na primark, é tudo uma questão de rebranding. Mas aquilo é o paraíso das ninharias e das t-shirts a 2 euros, para não falar daquelas t-shirts a apelar à consciência ambiental e humanitária que são feitas com trabalho quase escravo em países de terceiro mundo. Mas quem é que resiste a roupa tão barata? Eu não consigo... E a minha carteira também não! Depois da primark, que foi para assegurar o meu stock básico de roupa,repor meias e substituir boxers velhos, ainda dei uma volta por outras lojas. E este ano vivem-se tempos muito fáceis para os adoradores de palmeiras, roupa geek e padrões esquisitos. A ida à secção dos gajos numa loja de roupa já é o que é, as mulheres ficam com a entrada, a frente de loja e as prateleiras quase todas mas nós, para comprarmos umas calças, quase que temos que ir à cave, subir o evareste ou esmiuçar aquelas duas estantes ao lado das caixas. E quando cheguei ao destino vi um cenário comum em todas as lojas: palmeiras a dar com um pau, t-shirts geeks com super-heróis e aqueles padrões marítimos. Eu só queria um tshirt engraçada com uma piada, um meme ou um desenho mais caricato. Resultado: tive de procurar mais, andar em mais lojas e perdi 5 horas nisto. 5 horas num shopping é bué, é quase um dia de trabalho. Aquelas filas todas e aquela espera toda só me fizeram pensar o quão mais fácil o mundo seria se não houvesse roupa, tudo ao léu. Será que a malta também faria fila para comprar folhas de figueira para tapar a genitália? 

O Elefante

Douchebag

O Elefante, 04.05.21

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É Horrível. Acordar a meio da noite com vontade de ir à casa de banho é horrível. Uma pessoa ainda tenta dar luta, fecha os olhos, vira a almofada e tenta regressar ao sonho. Mas às vezes é difícil, há vezes assim, aquelas em que percebemos que se não formos mijamos mesmo a cama toda. Eu não sei quanto a vocês mas se há medo que mantenho desde que sou puto é das cortinas do duche. Isso mesmo, das cortinas do duche. E nem é aquele horror estético do "ai que cena velha que não se usa, tenho horror a isso" é mesmo aquele horror policial do "foda-se está ali um gajo escondido e vai me dar uma facada enquanto estou a mijar". Irracional. O ritual é sempre o mesmo, acendo a luz, vou em bicos de pés e afasto a cortina de repente como se todo aquele gesto grotesco gritasse "apanhei-te cabrão". Nunca apanhei ninguém, ainda bem. Hoje, como podem calcular pelas horas a que estou a escrever isto, a tradição voltou-se a cumprir mas só agora pensei no que nunca tinha pensado: "e se um dia está mesmo lá alguém, o que é que faço?!". Pior que ser assaltado com uma arma branca é ser assaltado com uma branca e ficar sem reação. A minha primeira ideia foi "piaçaba na testa do indivíduo", erro, pouco eficaz. Segunda ideia: fugir, erro outra vez, nunca fui atleta. Terceira ideia: "take one for the team", gritar e chamar pelos meus colegas de casa, herói, acabo esfaqueado mas salvo os meus colegas. Terei que começar a ir mijar de noite com gás pimenta? É que uma pessoa nem tem vontade de ser herói quando está ali a tentar ser rápido e discreto para voltar rápido para a cama para continuar o sonho alucinado que estava a ter. Vá lá, deixem-me mijar em paz. 

O Elefante

Quem é que meteu o jogo na estante?

O Elefante, 24.04.21

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Tenho tido uma grande crise existencial sobre a vida desde que te foste. Não estou a conseguir lidar com esta existência temporária no mundo, não estou a saber lidar com o morrer e deixar de existir. Morrer tem que ser como dormir, eu não sei que estou a dormir, não sinto que estou a dormir e nem sempre sonho. Terá a evolução criado algo em nós que é imaterial, que sobrevive a nós e vai para outro lugar? Mas mais do perceber o que é a morte, não me faz grande sentido o que é a vida. O que é verdadeiramente o Universo? Okay, temos o big bang, temos montes de teorias que explicam fenómenos físicos mas basicamente sabemos algumas regras de um jogo que ninguém sabe como nos apareceu na estante. O medo de perder o jogo é quase tão grande como o de perder a vez. E por isso tenho-me perguntado muito sobre o que é existir, o que é estar vivo e onde é que nós verdadeiramente existimos. O debate é um bocado inútil... nunca chegamos a lado nenhum. E nesta incerteza toda, penso como tu foste corajoso naquele dia, agora sim entendo como coragem, porque tu abdicaste da certeza de estar vivo, era tudo o que te restava. E cada vez olho mais para o mundo com estranheza, o que é, verdadeiramente, a realidade das coisas? E estas perguntas não me são estranhas, eu já me tinha debruçado sobre elas no secundário e até na universidade mas agora regresso a elas de forma avassaladora e curiosa, intensa. Mas se eu nunca vou perceber o que é estar vivo não seria justo que eu vivesse só, não perdendo tempo com estas reflexões inúteis? A morte para os meus avós é muito mais natural do que para mim, invejo-lhes essa tranquilidade. E se naquele sonho eu te dei um abraço que me pareceu tão físico, tão real e tão cheio de vida que acordei com o coração a mil, tinha-te mesmo abraçado enquanto te rias, estávamos mesmo ali então, o que me garante a mim que isto não é tudo um sonho? Estar vivo é uma condição estranha porque existir não faz sentido, estar vivo não faz sentido e morrer não faz sentido. E quando tudo não faz sentido que devemos fazer? Se isto for tudo um sonho então que se vivam as coisas boas para quando acordarmos acharmos que valeu a pena.

O Elefante